Eleição acirrada revela que é preciso rearticulação e mudança
Com a eleição em Fortaleza, refletindo a polarização nacional entre PT e PL, sendo decidida nos momentos finais da apuração, as urnas trazem importantes recados, segundo especialistas. O jornal O Estado ouviu dois especialistas sobre o atual momento da política local.
Para o professor Uribam Xavier, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza apresenta dois aspectos: tem uma parcela da população com tendência muito conservadora e uma camada mais de esquerda, mais simpática às questões sociais. “Então, isso demonstra que a capilaridade social de Fortaleza é dividida. Como é que a gente explica isso? São muitos fatores. Não dá para a gente pegar um fator e dizer ‘é isso que explica’. Tem um conjunto de fatores que vão contribuindo para isso”, explicou.
O especialista também citou a divisão das grandes forças políticas de Fortaleza no primeiro turno de 2024, que “teve muitos candidatos competitivos e alguns foram perdendo força ao longo da campanha. Nós tivemos aqui um fator que ainda precisa de análise: o prefeito quebrou a crença estabelecida de que praticamente quem disputa a reeleição sai vencedor”, disse em relação a José Sarto (PDT) ser o primeiro a não conseguir se reeleger em Fortaleza desde que a reeleição foi aprovada.
“Eu acho que o Sarto cometeu alguns erros. O principal deles foi ‘infantilizar’ a campanha. Criou-se uma espécie de marketing que não foi muito bem compreendido pela população, na minha avaliação. O Capitão Wagner [União] também não conseguiu segurar o capital político, fez uma campanha um tanto perdida. Ele aparecia como candidato que tinha capital político próprio, mas eu acho que fez ambiguidade ao se aproximar do bolsonarismo”, analisou Uribam Xavier.
“A novidade nessas eleições foi a gente ter um candidato que vem de mídias sociais, o André Fernandes [PL], que conseguiu um feito: inventar uma imagem daquilo que ele não tinha. Ele teve competência para contratar uma equipe de marketing muito boa. A imagem do André é aquela de quando ele se projetou nas mídias para ganhar popularidade e dinheiro e que aparece pegando carona com o bolsonarista. Ele fez uma campanha que é um simulacro”, explicou.
O professor reforça que o novo na política não tem a ver com idade, mas com a concepção do que o político pretende fazer. “O André Fernandes é o velho, só que é o velho que a gente tem que dar nome no Brasil. A extrema direita bolsonarista no Brasil é o que a gente chama na ciência política de fascismo, que teve raiz no Brasil nos anos 1930. Tem uma visão de patriotismo que tem ódio contra a pobreza, é homofóbica, racista é misógina.”
O especialista disse que André “sai com capital político muito forte, que pode inclusive se credenciar para ser o candidato da extrema-direita ao Senado nas próximas eleições”. Do outro lado, há alguns políticos que se perderam, como Roberto Cláudio (PDT) e os irmãos Ferreira Gomes, segundo o especialista. “Isso é o declínio do homem público que nós estamos vivendo no Brasil. Eu escrevi um artigo há 10 anos no qual eu dizia que os Ferreira Gomes estavam entrando em decadência. Decadência é uma coisa longa e eu acho que agora eles entraram na última fase da decadência.”
Sobre o PT, Uribam Xavier afirmou que o partido está em declínio nacionalmente. “Talvez o grande momento do PT em que ele vai declinar profundamente vai ser quando o Lula sair da cena política, que não está muito longe. E isso vai abrir uma disputa interna. O PT já não tem mais aquela estrutura que se tinha antes, quando surgiu como partido vindo dos movimentos operários, sociais. O PT disputa o poder pelo poder, não tem mais aquela visão de mundo de futuro.”
Sobre Camilo Santana (PT), o professor avalia que ele “gosta do poder”. “Ele assume o Ministério da Educação exatamente com visão de carreira, achando que seria um grande nome caso a chance de Lula se reeleger seja esgotada. Teve derrotas no Cariri e em Sobral, mas saiu vitorioso em Fortaleza, diante do quadro de derrotas do PT pelas demais capitais. Mas isso não resolve os problemas para o PT nacional nem local. O eleitor deu sinal de que é preciso mudar essa visão”, disse.
Perda de força
O doutor em Sociologia Clésio Arruda, professor da Unifor e da Unichristus, avaliou que esse cenário é resultado da perda de espaço do centro-direita para a direita mais radical. “E a gente passou a ter o centro-esquerda disputando com a extrema-direita. Tivemos em nível nacional o encolhimento do PSDB. No plano local, tivemos algo semelhante e o esvaziamento paulatino do chamado cambebismo ou novos empresários sob a legenda do PSDB, que virou partido nanico, e o PDT não conseguiu ocupar espaço, não conseguiu tirar os votos da extrema-direita.”
Segundo o professor, para evitar essa polarização em 2026, “é preciso uma rearticulação política com outras figuras que tentem ocupar espaço e fazer frente à força que adquiriu a extrema-direita. Assim, teremos disputa mais equilibrada, pelo menos, entre três forças políticas”.
Em relação aos Ferreira Gomes, Clésio avaliou que o racha entre Ciro e Cid, levou o senador, com o PSB, a se tornar grande força política em termos de prefeituras no Ceará. “Se foi um barco que naufragou, o Cid conseguiu pular fora desse naufrágio. O Ciro já reconhece que não tem mais a possibilidade de disputa eleitoral, já se despediu do processo eleitoral. Acredito que sai a família Ferreira Gomes, mas permanece um líder político, o Cid, com possibilidade de disputar e marcar presença nas disputas pela frente, em dois ou três processos eleitorais.”
Clésio disse ainda que Camilo “é uma liderança que tem ainda um capital político a ser utilizado a seu favor ainda em mais algumas eleições. Agora, projetar isso em termos temporais, vai depender muito das circunstâncias, de novas lideranças que possam surgir no jogo político”, avaliou.
E a vitória do PT com Evandro Leitão representa a possibilidade de recuperação frente aos eleitores após os reveses sofridos, principalmente com a retirada do Lula no processo da Lava-Jato. Ele volta à Presidência, mas está numa progressão de retomada de imagem”.
Fonte: O Estado CE
