POLÍTICA, RELIGIÃO E LIBERDADE

Importa chamar a atenção para o fato de que na China, por exemplo, não apenas existem organismos estatais para monitorar as religiões, mesmo o milenar Budismo, como foi estimulada a criação de verdadeiras “religiões estatais”. Destarte, na imensidão territorial da China existem “cristãos oficiais”, assim como budistas, confucionistas, muçulmanos, cuja manifestação da fé que professam só pode se realizar de forma privada, jamais publicamente, uma vez que o Estado é ateu por definição. De igual modo é a Coreia do Norte. Mas, pasmem os senhores, que a moda comunista é universal. Pega com rapidez em todos os que ascendem ao poder baseados nessa ideologia política. Aqui mesmo no Ceará foi criada uma Secretaria para Assuntos Religiosos com um objetivo claro e outro subliminar. O primeiro foi dar emprego para o ex-deputado Walter Cavalcante, derrotado no último pleito eleitoral; o segundo, só Deus sabe. O que sabemos é que o exemplo dado pelos países que adotaram tal postura não recomenda confiança nesse tipo de instituição oficial e burocrática. Assuntos religiosos dizem respeito à liberdade do ser.

Pensadores comunistas disseminam a ideia de que a religião não deve se imiscuir nos assuntos de Estado, porque cada um deve ocupar o seu quadrado, como se o ser humano não fosse um “homo politicus” em essência e, concomitantemente, não fosse um “homo religiosus.” Põem-se a garimpar argumentos que no final são falaciosos; já porque são oportunistas, já porque são desmoralizados pelas realidades palpáveis. Quanto aos militantes, que na academia pregam essas ideias abstrusas, na prática cotidiana da política vão à igreja, participam sacrilegamente de sagrados sacramentos, discursam piedosamente para os incautos, chegam às raias da teatralidade. Ao alcançarem o poder põem em prática seu ódio à religião e agem iconoclastamente em relação a tudo que é religioso. A História está repleta de exemplos, sendo o mais recente e mais próximo de nós o caso da ditadura que os comunistas comandados pelo revolucionário sandinista Daniel Ortega impuseram ao seu povo. Lembre-se que prelados como o padre-poeta Ernesto Cardenal, líderes católicos e evangélicos batistas ligados a teologias heréticas como a da Libertação, deram suporte moral à Frente Sandinista de Libertação Nacional – FSLN, que levou Ortega ao poder na Nicarágua. Atualmente ele dá o troco perseguindo, prendendo, expulsando e matando religiosos que se opõem ao seu governo criminoso.

Na verdade os comunistas abominam a religiosidade das pessoas porque o religioso, em especial o cristão, mas em maior medida o muçulmano, preza em elevado grau a liberdade que Deus lhe concedeu como ser que pensa, raciocina e expressa seus sentimentos através da fala, o que não ocorre com os animais irracionais. Atenhamo-nos aos cristãos, em razão de que somos maioria no mundo ocidental, mormente no Brasil, fundado aos pés da cruz em ato litúrgico celebrado por Frei Henrique de Coimbra. Ninguém é cristão segmentado ou pela metade. Não se pode ser cristão no recôndito do lar ou no templo e não sê-lo no restaurante ou em qualquer ambiente de entretenimento; não se pode reivindicar do cristão que represente a figura do Cristo no púlpito e não o faça no palanque, na tribuna ou na sala de aula; não se pode concordar o cristão que divulga a mensagem do Salvador em ambientes privados e não o faz no público. Cristão é cristão por inteiro. Se dessa forma não se comportar, se sua fé não for inteiriça, digo igualmente o apóstolo Paulo, que seja anátema.

Um homem de elevado nível intelectual e irretorquível vivência cristã houve que viveu durante o século passado, portanto, nosso contemporâneo. Fulton Sheen (nascido Peter John Sheen) foi bispo católico, teólogo e filosofo de projeção internacional, que soube usar os modernos meios de comunicação para pregar a Palavra de Deus, exaltando a verdadeira liberdade e condenando os totalitarismos como o nazismo, o fascismo e, sobretudo, o comunismo que conheceu sob o selo do carniceiro e enganador Joseph Stalin. “Um cidadão da Rússia – escreveu à época – só goza da liberdade da palavra e da liberdade de imprensa com a condição de usá-la para apoiar Stalin; do contrário é considerado um demolidor e a única liberdade que lhe resta é a liberdade do martírio. Na Alemanha (nazista), na Itália (fascista) na Rússia (comunista) não há minorias políticas. O governo está identificado com um partido, e liberdade de votar significa liberdade de aprovar a vontade do ditador.” É o que ocorre atualmente ao nosso lado, na Nicarágua e na Venezuela, exemplos de governo para os que hoje estão no poder no Brasil e buscam implantar algo semelhante entre nós.

Entre uma centena de livros que publicou Fulton Sheen, cuja causa de beatificação estacionou nas gavetas do Vaticano avermelhado sob o papado de Francisco, por pertinente, sugiro a leitura a obra O PROBLEMA DA LIBERDADE. Nesse livro, claramente inspirado por Deus, Sheen faz questionamentos e observações por demais pertinentes, tais como: “Deixar a religião fora da ordem social não é a negação de alguma coisa indiferente; é a privação de alguma coisa indispensável (…) Deixar a alma fora do corpo não é ficar com o corpo sem alma, é a morte. Deixar a religião fora da sociedade não é ficar com uma civilização secular, é o caos.” Por final, neste momento crítico em que o Brasil avança a passos largos para o caos, em que até pessoas da maior boa vontade e de puros sentimentos religiosos parecem cegos diante do avanço das tenebrosas forças malignas que já infelicitaram e infelicitam outros povos, é mister ouvir a voz de um santo homem como o Arcebispo Fulton Sheen, falecido em 1979, mas que continua falando alto aos nossos corações nos dias atuais: “Dizer que a religião é impertinente à ordem social vale o mesmo que conceder à irreligião predomínio na ordem social. Deixar a religião fora dos negócios públicos não é como deixar o azul fora de uma colcha de retalhos; é como arrancar os olhos fora da cabeça.” Se os cristãos e outros brasileiros de várias denominações religiosas não adotarem postura proativa contra o avanço de poder nas mãos de ideólogos do mal, certamente não ficarão apenas sem olhos; verão decepadas suas próprias cabeças.

Barros Alves é jornalista, poeta e assessor parlamentar
Fonte: https://www.cesarwagner.com.br/

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