Oposição comandará CPMI do INSS por descuido e traição aos presidentes

Em um descuido do governo Lula (PT) e uma traição aos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos/PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União/AP), a oposição emplacou nessa quarta-feira (20) os dois principais cargos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do escândalo de descontos ilegais no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Em uma reviravolta articulada nas últimas horas, segundo os próprios parlamentares, bolsonaristas apresentaram candidato próprio para a Presidência e derrotaram o senador Omar Aziz (PSD/AM), que havia sido indicado para o cargo por Alcolumbre.

Com a escolha decidida no voto, o senador Carlos Viana (Podemos/MG) foi eleito presidente por 17 votos a 14 e indicou o deputado bolsonarista Alfredo Gaspar (União/AL) para a relatoria. Motta havia escolhido Ricardo Ayres (Republicanos/TO). A votação surpreendeu até mesmo o novo relator, que contou ter sido procurado horas antes pelos líderes do PL e do União na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ) e Pedro Lucas Fernandes (MA), respectivamente, além do copresidente da federação União/Progressistas, Antônio Rueda. Esses partidos têm juntos quatro ministérios no governo, além da Caixa Econômica Federal. “Hoje fui tomado pela surpresa quando fui chamado dizendo que meu nome, caso o senador Viana fosse eleito presidente, iria ser colocado como relator”, afirmou Gaspar durante a sessão.

Após o resultado, Motta foi ao Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República, e conversou com Lula por cerca de 20 minutos. Na sequência, a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT/PR), responsável pela articulação política do governo, convocou os líderes da base no Congresso Nacional para reunião de última hora no Palácio do Planalto (sede do Executivo).
Nos bastidores, a eleição foi vista não apenas como uma falha na articulação do governo, mas também como nova afronta da oposição à autoridade dos presidentes da Câmara e do Senado, que tinham acertado relator e presidente antes da instalação da CPMI, como é de praxe. “Existe um respeito à ordem natural das coisas, mas, enfim, houve a candidatura inesperada do senador [Viana]. O governo achou que seria só a instalação e aconteceu o que aconteceu. Ninguém imaginava que houvesse esse desrespeito à liturgia, mas na Casa tem acontecido muitas coisas semelhantes, como a ocupação do plenário. Sigo como membro, vou continuar fazendo o meu trabalho, defendendo o que eu defendo e bola para a frente”, disse Ricardo Ayres à reportagem ao sair da sala da CPMI.

Após a derrota, o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT/AP), deixou a sala da CPMI e foi ao gabinete do presidente da Câmara. Randolfe atribuiu a derrota à ausência de nomes da base, como o deputado federal Rafael Brito (MDB/AL), que está em missão oficial. Com a votação inesperada e a jato, deputados federais bolsonaristas que são suplentes votaram no lugar de governistas que teriam dado mais votos a Aziz.

O senador chegou a reclamar que a votação tinha sido encerrada rapidamente, antes que parte dos membros pudesse votar. A senadora Tereza Cristina (PP/AL), que presidia a sessão por ser a parlamentar mais velha do grupo, negou que tivesse favorecido a oposição. Pelas regras internas, a votação pode ser encerrada com o voto da maioria absoluta dos membros (9 senadores e 9 deputados, no caso da CPMI do INSS). O placar foi anunciado quando 16 senadores e 15 deputados federais já tinham votado, ou seja, quando já havia maioria absoluta.

Para desgastar o governo, a expectativa da oposição é avançar sobre José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão de Lula e vice-presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos, uma das entidades colocadas sob suspeita nas fraudes do INSS. A CPMI tem inicialmente até 180 dias para concluir a investigação. O prazo pode ser prorrogado.

Fonte: O Estado CE

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