Como empresas devem lidar com a síndrome de burnout, reconhecida como doença do trabalho

A Síndrome de Burnout entrou para lista de doenças relacionadas ao trabalho pelo Ministério da Saúde. Essa decisão, respaldada pelos pareceres favoráveis dos Ministérios do Trabalho e Emprego, e da Previdência Social, entrará em vigor em 30 dias. Os ajustes na legislação marcam um avanço significativo na proteção da saúde mental dos trabalhadores, obrigando o poder público a desenvolver medidas de assistência e vigilância para prevenir doenças como o Burnout em ambientes laborais.

Juntamente com o reconhecimento da Síndrome de Burnout ou Síndrome do esgotamento profissional, a Portaria divulgada incorpora outras 165 patologias à lista, todas identificadas como responsáveis por causar danos à integridade física ou mental dos trabalhadores. Entre elas, destacam-se condições como ansiedade, depressão, Covid-19, distúrbios musculoesqueléticos, alguns tipos de cânceres e tentativas de suicídio. O documento também ressalta que o uso de determinadas substâncias, como drogas e álcool, pode ser uma consequência direta de jornadas exaustivas e assédio moral no ambiente de trabalho.
Em 2016, um estudo da Escola de Economia de Londres apontou que o Brasil perde US$ 63,3 bilhões por questões relacionadas a depressão, estresse, quadro de ansiedade, entre outros fatores psicológicos.
De acordo com dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem com a síndrome, e, segundo a International Stress Management Association (Isma), em meio a números de 2018, o Brasil ocupa a segunda colocação em casos diagnosticados em todo o mundo, perdendo somente para o Japão.

A Síndrome de Burnout, cujo reconhecimento agora se intensifica, é uma condição grave associada ao estresse crônico no trabalho que não foi gerenciado com sucesso. Ela se manifesta através de uma exaustão emocional, despersonalização e diminuição da realização pessoal no ambiente profissional. Os sintomas podem variar desde fadiga constante, alterações de humor, até problemas de sono e redução da produtividade. Se não tratada adequadamente, a Síndrome de Burnout pode ter consequências devastadoras para a saúde física e mental dos indivíduos afetados, podendo levar a uma diminuição significativa na qualidade de vida.

Para a psicóloga clínica Larissa Barros, a inclusão da Síndrome de Burnout como uma das doenças relacionadas ao trabalho é um passo fundamental na conscientização sobre a importância da saúde mental no ambiente profissional. “O Burnout é uma realidade que muitos profissionais enfrentam, e o reconhecimento oficial fortalece a necessidade de promover ambientes de trabalho saudáveis, onde a saúde mental dos trabalhadores seja prioridade. Agora, mais do que nunca, é crucial investir em estratégias de prevenção e suporte para evitar o impacto devastador que o Burnout pode ter na vida das pessoas”.

Além disso, Larissa também cita que a importância do reconhecimento oficial da doença vai além da esfera individual, impactando diretamente as empresas e a sociedade como um todo. “Ambientes de trabalho que não promovem a saúde mental de seus colaboradores enfrentam custos substanciais relacionados ao absenteísmo, queda na produtividade e aumento das taxas de rotatividade. Reconhecer e tratar o Burnout não apenas beneficia os trabalhadores individualmente, mas também contribui para um ambiente de trabalho mais saudável e produtivo”, destaca.

Nesse contexto, é fundamental que as empresas adotem medidas proativas para prevenir a Síndrome de Burnout. Isso inclui a promoção de um equilíbrio saudável entre trabalho e vida pessoal, o estabelecimento de políticas claras contra assédio moral e práticas de gestão que valorizem o bem-estar dos funcionários. Além disso, programas de apoio psicológico e a conscientização sobre a importância da saúde mental no local de trabalho são essenciais para criar uma cultura organizacional que priorize o cuidado com seus colaboradores.

A jornalista Camila Albuquerque, que vivenciou de perto a exaustão profissional, fala sobre a relevância da inclusão da Síndrome de Burnout na lista de doenças relacionadas ao trabalho como um passo crucial para evidenciar as dificuldades enfrentadas por muitos profissionais. Em sua experiência pessoal, Camila enfrentou assédio moral, desorganização no ambiente de trabalho e falta de diálogo com os superiores. Ao anunciar que estava enfrentando desafios psicológicos e que denunciaria a empresa, foi surpreendentemente demitida em apenas dois dias. As consequências foram profundas, incluindo estresse, ansiedade e um período de tratamento psiquiátrico que se estendeu por três meses até que conseguisse retomar seu sono regular. Camila ressalta a importância de quebrar o silêncio sobre o tema, afirmando: “É fundamental que as histórias de Burnout sejam não apenas ouvidas, mas compreendidas, para que possamos construir ambientes de trabalho mais humanos e empáticos, onde a saúde mental seja valorizada e protegida.”

Entre 2007 e 2022, o Sistema Único de Saúde (SUS) atendeu quase 3 milhões de casos de doenças ocupacionais, desde acidentes de trabalho graves, exposição a material biológico e lesões por esforços repetitivos ou distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho. Esses dados ressaltam a urgência de maiores cuidados com a saúde do trabalhador, a fim de adotar intervenções eficazes para prevenir e tratar a integridade deles.

Por Fernanda Leite

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